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Catálogo > Livros > Outros Temas > A polpa dos dias

A polpa dos dias

Margarida Mântua

18,00 € 16,20 € (-10%)

O mundo foi sempre fonte de espanto e foz de estranheza para o Humano.

A primeira forma que se encontrou de responder ao espanto e à estranheza foi religiosa. O Humano atribuiu ao sobre-humano a causa, a razão e o desígnio de tudo o que encontrava à sua volta e que, se entregue si, não podia nem sabia dar sentido.

 

Esta explicação mitológica da vida e do mundo viria por razões de ordem tecnológica, económica e cultural a perder eficácia.
Nesse súbito vazio divino foi-se instalando a emergente racionalidade filosófica e científica. A vida e o mundo tinham agora uma explicação estrictamente humana, explicação essa que era dada pelo entendimento humano e que se pretendia objectiva e provável.

Depois da primeira explicação Religiosa mas ainda antes desta recente explicação Filosófica e Científica, digo assim para paradoxalmente simplificar, da vida houve a explicação feita pela Poesia.  

Referindo-me à Grécia noutra simplificação falo dos Aedos, os primeiros poetas que também eram músicos e cantores. Para estes, como para os outros Gregos, a Poesia tinha origem na inspiração divina, era um sopro inflamado dos espíritos.

A Poesia era a Verdade e, era a Verdade, porque era a Memória que negava o Esquecimento.

O Esquecimento «Léthe» é silêncio, escuridão. A Poesia é «Alétheia», a Verdade brilho e fulgor.

 

Neste ponto da introdução, passo da circunstância professoral e pretendidamente objectiva, à do orador radicalmente subjectivista.
Tenho para mim, enquanto leitor e autor, que a Poesia é um olhar, mais completo, um ver.

Tomemos uma situação concreta para tornar mais fácil a minha explicação. Chove.

Peça-se a um cientista a um sacerdote e a um poeta que, na sua condição específica de saber, nos dêem explicações sobre o que sucede.

Das três explicações apresentadas o poeta é o que vai afirmar uma subjectividade extrema. O “eu” é o ponto de perspectiva tomado por inteiro e abandonado ou resolvido.

Um poema é o dizer do mundo e da vida feito por um ser-humano diferenciado e identificado.

Um poema é um pedido sentido e insilenciável.

Um poema é um lugar de encontro combinado entre o poeta e o leitor/ouvinte

Como quem diz:
- Vamos encontrar-nos no meu poema, que eu quero saber se tu vês o mundo e a vida como eu vejo.

 

Posto isto falemos dos poemas / lugares de encontro que Margarida Mântua connosco quer combinar.

A leitura que a seguir apresento é, tal como o acto de escrita poético, radicalmente subjectivo. Tal como a Poeta, também eu pretendo isso de uma forma deliberada. O que vos apresento é a minha leitura diferenciada e identificada. É uma resposta agradada ao veemente pedido de conversa que o poema nos faz.

 

 

Na Poesia de Margarida Mântua,  nos recursos léxicos, nas significações imagéticas e na descrição emocional há rigor, sobriedade, economia e diversidade. Nada é excessivo. Não há uma palavra a mais, nenhuma foi desperdiçada ou se tornou inútil.

 

Em « Há um acordo secreto»

 

(…) toda a matéria sólida

plena e perfeita

mergulhando na sua ancestral

natureza líquida.

 

Em «Antinomias»

 

(…)Singela

a rosa rescende

na sua filigrana

de aroma

desdobrando

os tecidos do real

 

Em« Matéria da Poesia»

 

Palavras

 correndo página afora

em cascata de sons

como estrelas cadentes

em fulguração instantânea

a poesia eleva-se a prumo (…)

 

 

Seria infindável a enumeração dos elementos significativos e estruturantes da poesia de Margarida Mântua. O prazer que primeiro retiro da leitura, e depois da análise destes poemas presentes, pede-me que me alongue e leve à exaustão este exercício subjectivo, e por isso inconsequente, da explicação da poesia.

Não o farei. Quero que este gosto que encontrei na leitura e na descoberta da possível significação de tão equilibrados e transparentes versos, também os meus leitores a possam fazer.

 

Assim sendo vou falar de 4 desses elementos: o Tempo, a Natureza, a Luz e o Poema

 

O Tempo tratado ora como insinuação, ora como imposição é a fonte de um espanto original; o retorno da eternidade que cíclico torna indistinta a sequência temporal. O tempo é a testemunha eterna da sua própria efemeridade

 

Em «Liturgia»

 

(…) Ausência funda

Presença mínima

Também somos o que perdemos…

o infinito desdobrando-se para trás

sem retorno

 

 

Em  «A Polpa dos Dias»

 

A polpa dos dias

por dentro da polpa dos dedos

a carícia

o suave aroma do jasmim

na memória

de outros dias poisados em contemplação

 

 

Em «Celebração»

 

(…) a poesia regressa intacta

ao tempo dos homens

rasgando o negro da noite

poalha de estrelas antiquíssimas

 

 

 

 

 

 

 

A Natureza

 Os elementos naturais passam por metamorfoses poéticas, interiorizando-se em sentimentos e perplexidades. Há um vai-vem constante, entre a Natureza brevemente insignificada e a intimidade psicológica e existencial que logo lhe dá significado.

 

Em «Uma Janela Aberta à Luz»

 

(…) como uma maçã

esférica, vermelho-rubra de luz

de aroma, próximo à água da boca

rente à respiração nua do coração

 

 

Em «Peneda»

 

No coração da montanha

A luz navega (…)
A montanha recolhe-se

Na sua solidão altiva

Violeta melodia de harpas de vento

 

Em  «Do Curso do Rio»

 

(…)Mas

Os nossos passos mergulham

Profusamente no leito do rio!

Onde a alegria da água?

Onde o abraço com a ondulação?
(…)

 


 

 

 

 

 

 

 

A Luz  é uma referência significativa recorrente na Poesia de Margarida Mântua. A palavra, quando investida de intenção poética, torna-se Sabedoria, a Verdade já referida na introdução.

Seja pela incandescência pela florescência, seja permanente ou intermitente, a luz em platonismo alegórico afasta a ignorância e o esquecimento.

O poema faz-se farol a avisar-nos do perigo de naufrágio se descuidarmos as palavras, afinal navios, que derivam nos mares da ausência.

 

 

 

Em «A Luz da Manhã»

 

(…) luz

pausada

serena

alheia aos espelhos

manhã eterna

lavada

inicial

 

 

Em «Por detrás do Palco»

 

Muros opacos dos significados

como preservar

a florescência das palavras?

como beber

essa luz indizível

que se desprende no rasto

do poema?

 

Em «Rente às Fontes»

 

(…) o uno e o múltiplo

desocultam a sua luz

o dia e a noite enlaçados

poesia liberta

da rede do pensar

obscura e radiosa (..)

Termino estes salpicos interpretativos condicionalmente subjectivos, com a referência a um dos recursos mais elaborados e reflectidos por Margarida Mântua: o Poema ele próprio, e na sua dualidade significante e significada.

O poema infinito, que escrito continuamente se reescreve, quase que chega a «dizer» serem dispensáveis quer o poeta, quer o leitor, que ele sozinho dará bem conta do recado de trazer o sonho pela mão das palavras.

A matéria do poema que existe antes do poema, espera pacientemente, ser por aquele vestida de formalidade.

 

Apesar de garantir que há poemas que não estão escritos porque não é preciso não, não faz isso e, chamando de novo o poeta e o ouvinte leitor, que parecia ter dispensado, faz-se ponte entre eles.

 

Em «Por detrás do Palco»

 

(…) o poema deseja a forma

revolve a casca cinzenta das palavras

à  procura

divagando

saltitando

sobre as cristalizações de sentido

rasgando janelas nos momentos (…)

 

Em «Utopia»

 

e o poeta em ansiosa laboração…. esperando o regresso do seu poema

à escrita, rente à terra,

o coração desfolhado entre infinitos espaços,

esta secreta engrenagem da gestação,

                                                                    

de que prado original emergem as hastes do poema?

a sombra vulto do poeta

desaparecida da paisagem

 

Em «Face a Face»

 

Palavra-cisne

        deslizando transparentemente

   atravessando a noite

     

      chegas

regressada de que espaço exterior

     longínquo…?

 

palavra-olhar intenso

         interrogas-me

rompendo o tecido opaco do real

 

palavra-nuvem

        desvanecendo-se

 

E ainda

fico presa ao chão

    das letras

 

esse sopro de infinito,

     que outra voz

o trouxe, o libertou, o incendiou…?

 

palavra-resposta

     palavra-pergunta

 

o que emerge deste nosso face-a-face…?

 

Em «Apesar de Babel»

Poeta sem voz

 sonhando       o poema único

 

                          o POEMA

          que sustém a linha do horizonte

 

…ainda sobra céu azul na terra dos homens?

 

     no coração do mundo

o poema lateja…

 

 

 

 

 

 

 

São estes os poucos passos em que os acompanho até à entrada do labirinto poético e existencial, desenhado a palavras por Margarida Mântua. Nem o caminho nem a saída desse labirinto são únicos, não são exclusivos e por isso não vão levar a mal que eu vos diga:

- A partir daqui vão sozinhos, estão por vossa conta. Se ficarem encadeados com a luz da Verdade que há nestes versos será intenção vossa.

Eu só os fui buscar ao fundo da caverna.

 

 

Lisboa, 1 de Fevereiro 2019

                                                                  

 

                                                                                

                                                                         Joaquim Marques

Ano de edição: 2019

Formato: 16x23

Encadernação: capa mole com badanas

Páginas: 96

Classificação: Outros Temas

 

A polpa dos dias

 
 
     
 

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