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AMIGO PAREDES

Paulo Sérgio dos Santos

40,00 € 36,00 € (-10%)

«Amigo Paredes» é uma recordação afetuosa que guardam aqueles que tiveram o privilégio de com ele conviver e um testemunho dos inúmeros admiradores do seu génio musical.

Livro com 256 páginas a cores em capa dura com imagens inéditas de Carlos Paredes.
Prefácio de José Jorge Letria e um texto inicial de Paulo Sérgio dos Santos.
Cerca de 30 entrevistas de Amigos de Carlos Paredes.

Uma breve cronologia, com imagens dos discos editados

 

A vida e a obra de Carlos Paredes são elementos referenciais na história cultural portuguesa desde meados da década de 60 do século xx, porque o guitarrista criou, transformou e deu a Portugal uma sonoridade única que o resume e nos resume e que lhe acrescenta uma carga poética que nem precisa das palavras para se materializar. Paredes resumiu-nos e emocionou-nos e traduziu, como nenhum outro, a nossa capacidade de juntarmos emoção, alegria e coragem na forma como estamos na vida e no mundo e como fazemos da Portugalidade a nossa singular maneira de ser, de estar e de construir. Continua a ser impossível ouvir a música de Carlos Paredes sem uma emoção profunda que nos sobressalta e mobiliza, porque tudo na sua obra é excelência, efémero e eterno e à medida dos nossos sonhos, esperanças e ideais.

 

Uma guitarra e o seu génio

O fado e a canção de Coimbra são patrimónios que marcam, indelevelmente, a identidade cultural da nossa cidade e povoam o imaginário coletivo, tendo contribuído, também, para a classificação da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia como Património Mundial pela unesco. Preservar a memória desta expressão musical, mantê-la viva e projetá-la no futuro, na sua complexidade e riqueza, implica respeitar as histórias e as pessoas que criaram e tornaram esta canção única no mundo.
Carlos Paredes é filho de Coimbra e foi nesta cidade que começou a afeiçoar-se à guitarra e a acompanhar o seu pai, o mestre Artur Paredes. Explorou novos caminhos e, nas suas mãos, a guitarra ganhou um novo universo. Partiu demasiado cedo, mas a sua obra deixou escola e um relevante legado que assume um valor inquestionável na cultura musical portuguesa.
Amigo Paredes é uma recordação afetuosa que guardam aqueles que tiveram o privilégio de com ele conviver e um testemunho dos inúmeros admiradores do seu génio musical. A publicação desta obra reforça a estratégia forte e assertiva de promoção do fado e da canção de Coimbra que a Câmara Municipal tem assumido. Desde a abertura do Núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra em 2015, instalado na Torre de Anto, a valorização desta expressão musical tem sido, de facto, objeto de especial relevância, sendo materializada em inúmeras ações, engrandecidas com a aposta em grandes eventos que projetam e reforçam a notoriedade da nossa cidade. O festival Correntes de Um Só Rio é também disso um exemplo que pretendemos perene.
É com os olhos postos no futuro que Coimbra prepara a sua candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027, mas sem nunca esquecer a sua matriz identitária, história e património material e imaterial. E Carlos Paredes será sempre de Coimbra.

Manuel Machado, Coimbra, Junho de 2021

 

Carlos Paredes: a arte de ser português com génio e assombro

A vida e a obra de Carlos Paredes são elementos referenciais na história cultural portuguesa desde meados da década de 60 do século xx, porque o guitarrista criou, transformou e deu a Portugal uma sonoridade única que o resume e nos resume e que lhe acrescenta uma carga poética que nem precisa das palavras para se materializar. Paredes resumiu-nos e emocionou-nos e traduziu, como nenhum outro, a nossa capacidade de juntarmos emoção, alegria e coragem na forma como estamos na vida e no mundo e como fazemos da Portugalidade a nossa singular maneira de ser, de estar e de construir. Continua a ser impossível ouvir a música de Carlos Paredes sem uma emoção profunda que nos sobressalta e mobiliza, porque tudo na sua obra é excelência, efémero e eterno e à medida dos nossos sonhos, esperanças e ideais.
Carlos Paredes, cuja vida e obra são indissociáveis de Coimbra e da sua memória cultural, é, em termos absolutos, um criador e intérprete genial da música portuguesa de todos os tempos, mesmo não tendo a guitarra que fazia parte de si pertencido ao fado de Lisboa ou à canção coimbrã, porque era universal como a obra e a prodigiosa imaginação melódica e harmónica de quem a criou.
Considero importante que, quando se fala de Carlos Paredes, se deixe de parte a tentação de o enquadrar, de o classificar ou de o arquivar. A única situação em que a palavra «arquivo» é aceitável em relação a Paredes é quando recordamos que ele foi arquivista de radiografias nas caves do Hospital de São José, destino profissional que se encontrava, até fisicamente, muito abaixo do que lhe era devido e do que Portugal lhe devia.
Só lamento que depois do 25 de Abril de 1974 Carlos Paredes não tenha sido requisitado, enquanto funcionário público, aos Hospitais Civis de Lisboa para ensinar e partilhar a sua arte num conservatório público. É certo que não tinha as habilitações académicas canónicas e que não escrevia música, mas, em compensação, tinha o génio, a técnica, a experiência e a sabedoria que fariam dele um mestre único. Vale a pena perguntar: quantos mais, incluindo aqueles que então nem quiseram considerar essa possibilidade, se podem ou poderiam orgulhar do mesmo?
Conheci Carlos Paredes nos anos 60, século xx, em Cascais, em casa de Michel Giacometti que ali se radicara pouco tempo antes e que, numa noite inesquecível, quis pôr Carlos Paredes a tocar ao despique com o guitarrista popular Manuel Jaleca, dos Bonecos de Santo Aleixo. Foi uma noite inesquecível, já o disse, tanto do ponto de vista musical como no plano da relação humana, com Carlos Paredes sempre pródigo a elogiar os outros para melhor desviar as atenções de si.
Pouco tempo antes, Carlos Paredes compusera a música para a peça Esopaida, de António José da Silva, espectáculo de estreia e fundação do Teatro Experimental de Cascais, dirigido até hoje pelo grande encenador que é Carlos Avilez. Desde essa época, Paredes manteve uma relação de amizade e colaboração com o tec, que o homenageou em 13 de Novembro de 1993, no dia do aniversário da companhia, com o descerramento de uma placa no Teatro Mirita Casimiro, no Monte Estoril, numa altura em que a doença que mais tarde vitimaria Carlos Paredes já praticamente o impossibilitava de tocar e mesmo de andar. Os 11 anos que ainda se seguiram foram de grande sofrimento, de isolamento e de apagamento para Portugal e para o mundo, nos quais tanto tinha ainda para mostrar com o caudal imparável do seu talento interpretativo e da sua energia criadora. A Sociedade Portuguesa de Autores apoiou-o também nessa fase dramática da sua vida.
Fui, durante quase 30 anos, amigo, companheiro e algumas vezes confidente desse modestíssimo e discreto homem de génio que nunca renunciou às utopias que o levaram a sofrer na carne e no espírito a violência repressiva da ditadura, que o prendeu, torturou e baniu da Função Pública até ao 25 de Abril de 1974. Mas, sobre isso, nunca lhe ouvi uma queixa, uma palavra de ressentimento ou um desejo de vingança. Eram memórias que lhe doíam demasiado para que a elas pudesse ou quisesse voltar.
Sempre cioso da sua intimidade, Carlos Paredes nunca falava da família, da vida sentimental, dos filhos que tinha, dos problemas materiais que tanto o atormentavam e dos sonhos que ainda tencionava realizar. Nessa esfera privadíssima, ele não deixava que ninguém entrasse. Por vezes falava de Artur Paredes, seu pai, ou da tia a que tanto se afeiçoara, mas pouco mais. Quem o conhecia bem, sabia que o seu coração estava sempre aberto para novas paixões e descobertas, para não lhes chamar aventuras, mas também nessa matéria era tão reservado que não consentia qualquer forma de devassa. Carlos Paredes era assim mesmo, ninguém tinha nada com isso, e, se tivesse sido de outra maneira, talvez a sua música não tivesse tido a marca do génio.
Homem de finíssima inteligência e de apurada cultura, estava sempre atento ao que se passava no mundo, sendo a sua proverbial distracção somente uma forma de se proteger e de ficar a sós consigo. Em Novembro de 1989, logo após a queda do Muro de Berlim, telefonou-me algumas vezes de madrugada para, emocionado, me fazer perguntas como estas: «Então e agora o que vai acontecer? O que vai ficar de um mundo que deu tanto trabalho a construir e que representou o sacrifício de tantas vidas?» As minhas respostas ficaram só para mim e para Carlos Paredes.
Viajámos muitas vezes juntos, em Portugal e no estrangeiro, de Itália à Suécia, de França à República Democrática Alemã, muitas vezes em muito precárias condições. Em todos os palcos deslumbrava e conquistava os públicos, sem nunca acreditar verdadeiramente que era a si que os aplausos se destinavam. Em Setembro de 1974, na festa do jornal L’Unità, órgão central do Partido Comunista Italiano, em Bolonha, vi uma plateia de mais de três mil pessoas a aplaudi-lo de pé, também como símbolo que era de uma revolução triunfante, a do nosso 25 de Abril. Mas, mesmo aí, ele fez questão de dizer que as palmas não eram para ele mas para a Revolução Portuguesa. E recordo-me de ter visto um homem muito magro, macilento, de óculos escuros, vestindo de negro, que quis ir cumprimentá-lo e conversar com ele nos bastidores. À saída confirmei o que já suspeitava. Tratava-se do realizador, poeta e ensaísta italiano Pier Paolo Pasolini, que o queria convidar para compor a banda sonora do filme que tinha em preparação. Esse projecto não chegou a concretizar-se porque entretanto Pasolini foi assassinado em Roma de forma brutal e porque Carlos Paredes nunca acreditou que o convite fosse para valer. Pensava que era só uma brincadeira. Mas era mesmo a sério, e só o destino impediu que se materializasse numa parceria única.
Eu e todos aqueles que trabalharam, conviveram e viajaram com Carlos Paredes guardaram na bagagem da memória dezenas de histórias divertidas que ilustram a sua distracção, a sua forma desajeitada de lidar com o palco e com o mundo circundante, a sua infinita modéstia, o seu discreto mas aguçado sentido de humor e a imensa generosidade de alguém que sempre entendeu que a vedeta não era ele mas sim a sua guitarra e Portugal. A soma dessas histórias daria para publicar vários livros, mas confesso que lhes atribuo pouca importância, pois elas subalternizam a grandeza da obra e o génio do artista. Como aconteceu com Manuel Maria Barbosa du Bocage e com outras grandes figuras da nossa história cultural, existe sempre o perigo de que a ligeireza do anedotário se sobreponha e ofusque o fulgor da obra realizada.
Não posso deixar de sublinhar o papel fundamental que tiveram na sua vida musical e pessoal, como acompanhantes, Fernando Alvim e Luisa Amaro.
Por isso prefiro recordar o músico infatigável, o intérprete comovido, o grandioso poeta dos sons que conseguiu sintetizar em magistrais peças de três ou quatro minutos a profundidade, o lirismo ou o sentido épico da alma portuguesa. Estou cada vez mais convicto de que ninguém conseguiu ir tão longe como ele nessa tarefa de assombro. Tive oportunidade de o escrever várias vezes e de lho dizer com frequência, mas ele, sendo eu uma das poucas pessoas que o tratavam e ele tratava por tu, respondia-me sempre com um sorriso meio atrapalhado: «Ó amigo, isso é um exagero, há quem seja muito melhor do que eu.» Não era verdade, ele sabia que não era verdade, mas essa era a única forma de ser coerente com a sua imensa modéstia.
Quando ele morreu em 23 de Julho de 2004 legou à spa, em testamento, o seu espólio, que inclui a guitarra de concerto fabricada em 1963 por Gilberto Grácio, livros, discos, várias condecorações e muitas anotações. Senti que tinha morrido com ele uma parte de mim, da minha memória cultural e afectiva, dos meus sonhos e da minha quase infantil capacidade de admirar quem o merece. Todos ficámos mais pobres e mais sós nesse dia, mas ficou connosco a pureza, a magia e o mistério dessa música poderosa que ecoa dentro de nós e consegue falar por todos nós. Acho que nunca lhe agradeci convenientemente o prefácio que escreveu para um livro meu sobre a canção política, em finais dos anos 70 (A Canção Como Prática Social). Foi o único que ele escreveu em toda a sua vida, e Paredes escrevia primorosamente, com elegância, clareza e estilo, ou não fosse ele um grande músico.
Acho que deixei muitas outras coisas por lhe agradecer. No dia em que propus à direcção da Sociedade Portuguesa de Autores que o seu nome fosse atribuído à sala/galeria que é o Salão Nobre da instituição, creio ter-lhe dito, à minha maneira, obrigado, mesmo estando ele fisicamente ausente. Tenho atrás da minha cadeira, no meu gabinete de trabalho na spa, um belo quadro de Marco Moura, de Coimbra, datado de 2004, que o retrata com uma fidelidade inexcedível e comovente. Todos os dias, quando inicio a minha jornada de trabalho, olho para esse retrato e apetece-me dizer: «Sabes, Carlos, este Portugal que hoje está triste e cabisbaixo talvez consiga renascer com a cadência exaltante e única da tua música.» Mas não o faço porque ele deve saber que é assim que eu penso. Digo isto com a esperança de ver um dia uma estátua que o evoque e homenageie com a qualidade merecida e devida num sítio central da cidade de Coimbra. Tudo isso lhe é devido porque, no movimento perpétuo que foi a sua relação com a música, com a cultura e com a vida, nunca houve ou haverá outro Carlos Paredes, um dos melhores de todos nós, ao lado de Zeca Afonso e de alguns mais, mostrando a Portugal que tem razões de sobra para nunca renunciar ao orgulho que deve ter e manter nos seus grandes criadores.
Há poucos anos, a spa recolheu um número considerável de depoimentos de diversas personalidades com o objectivo de publicar um livro biográfico sobre o genial compositor e intérprete que foi Carlos Paredes. Esse livro não nasceu, mas creio que esse acto abriu as portas à obra escrita por Paulo Sérgio Santos que com este texto tenho o gosto de prefaciar, acreditando que ela irá ser um contributo relevante para um melhor conhecimento de Carlos Paredes e da sua obra única e absoluta. Paredes compôs e tocou por todos nós e para todos nós com a impressionante capacidade de síntese e de mobilização de sonhos e de afectos que fazem muitos dos temas que criou, tocou e levou pelo mundo para assombro de tantos, deixando sempre no ar, intensa e veemente, esta frase: «Se Portugal é esta música, então queremos saber muito mais sobre o modo de ser português.» O grande poeta Teixeira de Pascoaes falou da arte de ser português, e a música de Carlos Paredes é um permanente livro aberto sobre essa arte que tanto diz sobre nós, para assombro dos que estão presentes e dos muitos que hão-de vir.

José Jorge Letria, Lisboa, Setembro de 2016

 

Conversas para doze cordas e mil dedos

«Não gosto de falar de mim.» Esta frase era, muitas vezes, o cartão-de-visita que Carlos Paredes entregava aos jornalistas. Francamente improvável levá-lo à conversa sobre si mesmo, foi com aquela expressão que começou o diálogo para o artigo publicado na revista Mundo da Canção, de Maio/Junho de 1980. No caso, como em praticamente todos, encaminhou-se o percurso das palavras para a música – a sua paixão maior – e para a guitarra portuguesa – o prolongamento do seu corpo. «Vamos falar de música, da guitarra, mas sem pessoalizar essas questões.» Num artigo publicado pelo Se7e, de 15 de Março de 1990, José Luís Vasconcelos, o produtor de um documentário sobre Paredes, confessava: «Com a simplicidade que lhe é habitual, Carlos Paredes exigiu que o filme fosse sobre a música e a guitarra portuguesas, em vez de um documentário biográfico
Não pode negar-se, no entanto, embora talvez se adivinhe uma pequena discórdia extemporânea, que ao falar-se de música e de guitarra portuguesas, está-se necessariamente a falar de Carlos Paredes. Será tarefa difícil dissertar sobre essa matéria sem, pelo menos, o lembrar. A associação é imediata. E, na opinião de tantos, Paredes deverá ser o nome primeiro a mencionar quando se fala de música de guitarra portuguesa. Do mesmo modo que, mutatis mutandis, falar do guitarrista é também, necessariamente, falar do seu instrumento e da sua música. Não há como escapar a este envolvente triângulo. Essa figura geométrica revela-se pela percepção conjunta dos três vértices. A falta de qualquer deles desmancha em absoluto o trilátero, pondo definitivamente em causa a sua existência. É, grosso modo, equivalente a questionar o que seria da guitarra portuguesa sem Carlos Paredes, de Carlos Paredes sem a guitarra portuguesa e da música deste instrumento sem ambos.
Vem a propósito lembrar que Carlos Paredes, mesmo unanimemente descrito como reservado, exteriorizou sempre as suas convicções de forma intensa, sendo que uma delas foi o forte incentivo para um gosto generalizado pela guitarra portuguesa. Não se tratava de alguém que, íntimo da sua cúmplice de doze cordas, a pretendia fechada e destinada só a si mesmo ou a poucos privilegiados. Paredes tentou sempre dinamizar o conhecimento deste instrumento, procurando universalizar o seu ensino. Nessas causas a que se entregava incessantemente, chegou mesmo a propor que o Estado criasse e apoiasse uma cooperativa de construtores de guitarras portuguesas, onde estas pudessem ser construídas e/ou recuperadas. Foi também nessa sequência que criticou o isolamento da música face a outras aprendizagens, defendendo que deveria ser dada formação musical a alunos de diferentes áreas académicas.
Recuando às páginas do Diário de Lisboa de 30 de Janeiro de 1967, «este homem simples, este guitarrista espantoso que até agora tem tocado apenas, graciosamente, para aquela gente de que é amigo, entre a qual se sente bem e tanto aprecia – estudantes, operários, pessoas que apreciam boa música – triunfará (...)». Ao espírito altruísta para com a divulgação da música ou o ensino da guitarra, acrescentou sempre um olhar francamente humano. Com convicções políticas de esquerda, ofereceu, sem olhar a meios, a sua arte, o seu tempo e o seu talento ao Partido Comunista Português, por exemplo. Onde quer que se pudesse encontrar utilidade para o militante, ele respondia sempre: presente. Por vezes, com evidente sacrifício pessoal. Ainda que no abstracto pudesse parecer estranho, uma guitarra, tocada por um homem que não se fazia acompanhar de «cantores de mensagens» nem de outros, moveu multidões e transmitiu formas de estar perante a vida. Os testemunhos recolhidos dentro do Partido Comunista são reveladores, quer da entrega, quer da capacidade mobilizadora. Poderá mesmo sugerir-se que Carlos Paredes incluiria estes momentos num conjunto de experiências que cruzaria com a sua música, tanto a tocar, numa modalidade simbiótica, como por absorção atenta, transformando-os em novas composições. As declarações que fez em diferentes momentos ajudam a sedimentar essa percepção. São dele as palavras proferidas no Diário de Notícias de 15 de Maio de 1988: «Eu estou convencido que não se pode fazer literatura ou música sem se ser estimulado por aquilo que se passa à nossa volta.» Já no Diário de Lisboa, de 14 de Outubro de 1983, dizia: «Todas as músicas que faço são pequenas canções. São feitas de experiências e contactos com o mundo.»
Os contactos com o mundo sucederam-se, tendo Paredes viajado com a sua guitarra para fora do país por diversas vezes. Fosse em Inglaterra, na China ou em Moçambique, Portugal ouviu-se nos seus «Verdes Anos», no seu «Canto do Amanhecer» ou no seu «Divertimento», entre tantos outros hinos. Incursões sempre recebidas com enorme entusiasmo, relatadas por companheiros de viagem, pelo público ou por jornalistas locais. Na altura Presidente da República, Jorge Sampaio sublinhou, no contexto da homenagem «Movimentos Perpétuos», o seguinte: «Na sua música nos encontramos, porque ela, sendo dele que genialmente a criou, é de todos nós que a ouvimos, sentimos e amamos.» Mais à frente completa-se a presente ideia: «Por isso, a sua música é, ao mesmo tempo, tão dele e tão nossa, tão individual e tão colectiva, tão original e tão reconhecível, tão portuguesa e tão universal.» A verdade é que a linguagem musical de Carlos Paredes, tantas vezes identificada com o seu próprio país, não conheceu fronteiras.

Paulo Sérgio dos Santos

Breve Preview:

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Ano de edição: 2021

Formato: 195x255

Encadernação: capa dura

Páginas: 256pp a cores

 

 

Classificação: Pequenos Tesouros

 

AMIGO PAREDES

 
 
     
 

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